Friday, August 28, 2009

Meu jogo inesquecível

Quando parei pra pensar qual o jogo mais inesquecível da minha vida, percebi que havia muitos. A memória é capaz de manter vivos fatos, cores, formas e paladares mesmo após anos e anos de distanciamento dos fatos.
Ora, nasci e me criei dentro dos bastidores televisivos do futebol. Meu pai, Fred Marques, trabalhou durante muitos anos na tv Ceará e na extinta tv Manchete. Tive a oportunidade de conhecer narradores, equipamentos e até mesmo os vestiários dos times que pelo presidente Vargas e pelo Castelão passaram. Apaixonava-me pelo futebol cada vez que conhecia novos estádios como o do Terra e Mar no Mucuripe, o de Caucáia, ou mesmo o Euzir Cabral na Barra. Por todos esses fatos da infância/adolescência, não é de se espantar que quando precisei escolher um tema para a pesquisa de fim de curso da minha graduação em História, o tema já estava escolhido dentro de mim: quero escrever sobre futebol! Nessa ocasião morava na cidade de Sobral, terra natal de meu pai. Juntando a paixão e o novo ofício, me veio a idéia de escrever sobre a história do futebol nessa cidade. Passei um ano transcrevendo todas as reportagens que encontrava nos jornais de 1914 até 1921.
Durante esse período, acompanhei muitos jogos do meu time de coração: Ceará. Em muitos jogos torci pela ascensão do Guarany pra a série “B” do brasileirão e para a elite do futebol Cearense. Mas nenhum jogo do Ceará nem tão pouco o Guarany, nem mesmo os da seleção brasileira que marcaram a minha memória como esse.Um jogo onde eu não estava lá. Mas acompanharia com aflição o seu desenrolar com um frio na barriga idêntico ao de quem está a beira do campo vendo uma final do seu time.
Em uma das cabines da sala de microfilmagem da biblioteca pública Menezes Pimentel, em janeiro de 2005, tive o prazer de acompanhar pelas linhas do jornal “A lucta” o meu primeiro jogo pesquisado.
Em 1920 o Sobralense Foot-ball Club era um dos times mais populares da cidade e o mais aclamando pela elite local. Em outubro desse ano o time sobralense receberia para um amistoso match o Paysandú (da cidade de Massapé) em um belo dia de domingo no ground do Jockey Club. Como refeer da partida o aplaudido sportman José S. Saboya de Albuquerque. O time massapeense vestia cores verde e amarelo. Já os sobralenses um terno alvo e rubro. A assistência de mais de mil pessoas viram um primeiro half time disputadíssimo, com o time massapeense atacando bastante, porém ficando nos desarmes do bach sobralence Freitas e o keeper Carlos Demétrio. Na linha de frente o time sobralense contava com Brito, Zezé, Gerardo, Adeodato e Itamar, esse último após um bate-rebate na área acabou por vazar o retângulo verde-amarelo marcando um goal para o time local. No segundo tempo sobre forte pressão do visitante o goal kipper do sobralense, ao efetuar uma defesa acabou por ficar desacordado. Fim de jogo, o Sobralense venceu por 1 a 0.
A emoção era imensa, eu olhava para os lados, para as outras cabines de microfilmagem com vontade de pular, abraçar, puxar um canto de torcida. Parecia mesmo que eu tinha acabado de presenciar o jogo. Era uma simples vitória de um despretensioso time, em um momento onde o futebol não tinha nem mesmo redes para serem balançadas, mas já contava com um encanto magistral que me faz lembrá-lo todas as vezes que assisto qualquer outra partida.

PONTA-PÉ INICIAL:

A idéia inicial desse blog é servir de expositor dos trabalhos, artigos, curiosidades e relatos pessoais daqueles que vivem o futebol, em múltiplas visões. Possam ser torcedores, admiradores, atletas, jornalistas, estudiosos, ou simples desocupados que pararam em algum momento, em algum lugar, de alguma forma para olhar um jogo qualquer e entenderam que o futebol não são, apenas, 22 homens correndo atrás de uma bola. É um micro universo de razões, poderes e sentimentos capaz de mudar o destino de um grupo de pessoas, uma cidade, um país e ao mesmo tempo capaz de não influir em nada.